Manara e a Sensualização das Mulheres nos Quadrinhos

mulher-aranha(1)Durante a última semana a internet foi bombardeada por uma avalanche de notícias sobre a capa alternativa para a primeira edição do novo gibi da Mulher-Aranha desenhada pelo mestre Milo Manara. Os motivos? A capa foi considerada sensualizada demais.

Vamos deixar de lado a evidente falta de informação e conhecimento prévio do trabalho do artista demonstrado pelos detratores da capa. Vamos nos ater então às “entrelinhas”, aos motivos que possam ter ofendido tantas pessoas ao redor do mundo em um trabalho que, convenhamos, não chega nem perto das melhores obras de Manara em qualidade e sensualidade.

mulher-aranha(3)A principal fonte de tantas reclamações é justamente o corpo da Mulher-Aranha que, exposto em uma capa de tal forma, supostamente evidencia um machismo inerente ao mercado e aos leitores de quadrinhos, afastando possíveis leitoras e influenciando negativamente os homens que compram gibis por incentivá-los a tratar as mulheres como objetos sexuais e nada mais.

Sobre isso tenho só uma coisa a dizer: balela!

A Mulher-Aranha (Jessica Drew) teve sua primeira aparição em Marvel Spotlight #32 de Fevereiro de 1977. Seus criadores? Archie Goodwin e Marie Severin, uma mulher!

mulher-aranha(4)Criada apenas com o propósito de manter o direito do nome para que a distinta concorrência não criasse uma “versão feminina do Homem-Aranha”, as vendas de Marvel Spotlight #32 foram surpreendentemente bem, fazendo com que a editora providenciasse um título só para a personagem em 1978. A revista foi um sucesso. Algumas edições depois e a Mulher-Aranha estreava seu próprio desenho animado. Seu título original foi cancelado 50 edições depois e a personagem acabou esquecida na década seguinte.

Em 2005, Brian Michael Bendis resgatou a personagem do ostracismo, colocando-a em um papel importante na nova estrutura do Universo Marvel que estava arquitetando. Jessica Drew era a líder dos Novos Vingadores. O sucesso da personagem foi tanto que as edições originais de Spider-Woman foram reeditas integralmente junto com Marvel Spotlight #32.

mulher-aranha(2)Parte do interesse pela Mulher-Aranha vem de sua profundidade como personagem de quadrinhos. Como heroína, ela ainda possui suas falhas e defeitos além de uma forte sensualidade que só pode ser comparada a seu poder. Ou seja, não estamos falando de uma heroína de fútil criada apenas para apetecer as mentes púberes de jovens leitores. Estamos falando de um caso raro onde uma personagem de segundo escalão conquista seu lugar entre heróis de primeira, através de boas histórias, bom desenvolvimento de personagem. Roupas curtas e corpos esculturais geralmente não são o suficiente para títulos próprios.

mulher-aranha(1)E já que estamos falando de roupas curtas, vale a pena citar que além de um belo uniforme, a personagem possui um corpo padrão dentro do universo dos quadrinhos. Não estamos falando de uma heroína voluptuosa como a Poderosa da DC ou Drunna de Serpieri. Estamos falando de um corpo padrão de super-heroína de histórias em quadrinhos exibido pela personagem desde a sua estreia em 1977.

O corpo perfeito do físico do herói, e heroína, remonta à antiguidade. Não vemos representações de Hércules ou Atena com panças protuberantes e seios flácidos. Seus corpos perfeitos eram reflexos de sua moral e integridade, suas conquistas se davam a seu poder físico. Isso faz parte da arte a milênios. Mas a Grécia antiga não possuía o politicamente correto. Não teríamos metade dos avanços na arte se lá atrás, alguém mandasse cobrir os seios da Vênus, pois aquilo poderia agredir os olhos das crianças ou mostrar as mulheres como objetos. Esse policiamento é necessário sim! Mas estão atacando os frutos e não a raiz.

mulher-aranha(5)As editoras precisam parar de enxergar o meio e as vendas como algo pontual. Trabalha-se em pequenas explosões de venda devido a algum “mega-evento-cataclísmico-que-vai-mudar-tudo-mas-não-muda-nada” ou em pequenas polêmicas pontuais como casamentos homo afetivos, mortes, ressurreições e capas com heroínas seminuas em poses e contorcionista. Se as capas sensualizadas atraem leitores masculinos, porque não trabalhar para atrair as leitoras? Ou leitores mais velhos? A qualidade, o boca-a-boca que gera interesse se restringe a poucos títulos.

Somos todos adultos e estamos acompanhando o meio a muito tempo para saber que os leitores de quadrinhos não são apenas homens heteros e brancos. Isso é estatística de quem não conhece e acompanha quadrinhos. Também sabemos que o número de leitores ao redor do mundo só diminui ano a ano enquanto as editoras mantém o foco em acompanhar o crescimento e amadurecimento daqueles leitores lá dos anos 70 que cresceram lendo as aventuras de seus heróis e heroínas. E onde esse crescimento e amadurecimento se refletem? Somente no grau de violência das histórias e na complexidade cronológica que exige que cada leitura seja feita com uma enciclopédia ao lado.

women dress dc comics comics group 4000x2495 wallpaper_wallpaperswa.com_27O mercado de quadrinhos americano é formado em sua grande maioria por homens, assim como homens brancos, e isso se reflete na qualidade e “variedade” do que se encontra em bancas de jornal e lojas de quadrinhos ao redor do mundo. Quais os motivos que moldaram o mercado desta forma? Porque temos tão poucas mulheres no meio mainstream, já que a maioria das artistas parte para um nicho mais independente onde talvez possa realmente se expressar de acordo com o que realmente pensa e sente? O que a diversidade entre autores poderia trazer para os títulos? Este mercado dominado por homens caucasianos é reflexo do público ou vice-versa?

Percebem o nível que este debate poderia e deveria atingir?